O tempo depois do relógio: entropia, história e irreversibilidade

Há um conceito oriundo da física que participa de uma transformação na compreensão do tempo como simples sucessão homogênea de instantes. Ao inscrever a irreversibilidade no próprio curso dos processos físicos, ele desloca esse regime temporal para além da previsibilidade mecânica. Essa inflexão não se restringe ao campo das ciências naturais. Ao longo do século XX, diferentes áreas do conhecimento passaram a se organizar em torno de problemas comuns, nos quais certas categorias circulam entre domínios distintos porque respondem a experiências reais de um mundo no qual rupturas epistêmicas coexistem com uma história em acelerada transformação. Nesse horizonte, o tempo deixa de operar apenas como medida abstrata e passa a se impor como questão de vários campos — condição a partir da qual se desenvolvem as reflexões que seguem.

Notas para uma crítica do tempo

Pensemos em uma situação na qual deixamos cair um copo de vidro que imediatamente se estilhaça em incontáveis fragmentos, de diferentes formas e tamanhos. Se pudessemos nos ater a um instante específico dessa profusão de cacos, tal como uma imagem cinematográfica em câmera lenta, não poderíamos inferir, por nenhum método, a exata trajetória dispersiva daqueles fragmentos (seria como um algoritimo que prevê o resultado da loteria). Tampouco conseguimos reproduzir o mesmo comportamento dos estilhaços, instante por instante, ao quebrarmos um segundo copo. Em última instância, não é possível reconstituir, por simples encadeamentos de causa e efeito, o percurso exato que levaria de volta ao estado anterior.

Guardemos essa imagem por enquanto. Agora vamos pensar no tempo marcado pelo relógio. Trata-se de um tempo mecânico, pois o ponteiro se move em ritmo constante, como uma sucessão de instantes homogêneos e equivalentes. Nesse regime temporal, o presente aparece sempre como continuidade simples do momento anterior, como se as mudanças de estado desencadeadas ao longo do tempo ocorressem de forma organizadamente previsível, regidas por relações claras de causa e efeito. Ou seja, totalmente diferente do nosso exemplo do copo.

A termodinâmica, ao se dedicar ao estudo das transformações de energia/calor, revela um regime temporal que não pode ser reduzido ao funcionamento de processos mecânicos. O calor se dissipa: em nível microscópico, as partículas se espalham como os cacos, e o número de configurações estatisticamente possíveis cresce de maneira exponencial desordenando a cognoscibilidade dos estados sucessivos. Essa desorganização é conhecida por um nome muito específico: entropia. É nesse ponto que entra a segunda lei: Em um sistema fechado — isto é, em condições idealmente isoladas de fatores intervenientes — a entropia tende a aumentar.

O espírito do tempo parece acompanhar esse processo em vários campos da produção e reprodução da vida. O funcionamento de uma máquina mecânica, tal como se cristalizou na Revolução Industrial: um tear a vapor, uma prensa tipográfica, um motor a combustão, todos organizados como dispositivos cujas partes se encadeiam segundo relações fixas, em que cada movimento decorre diretamente do anterior, como no relógio que apenas transfere impulso de uma engrenagem a outra. Nesse modelo, o funcionamento é transparente, e o futuro já está contido na própria arquitetura do mecanismo, bem diferente do que vivenciamos hoje com as máquinas a partir da inteligência artificial e com todo um universo digital baseado em algoritmos.

A noção de entropia (a segunda lei) funciona como metáfora para a experiência subjetiva e para a própria atividade intelectual, atravessadas por dispersão e acúmulo caótico de configurações provisórias. Por outro lado, ela aponta para uma leitura da história, em diálogo indireto com Walter Benjamin, na qual o tempo é concebido como campo de ruínas, e não como progresso contínuo. Pressupõe-se, assim, que o mundo não é regido por encadeamentos lineares, da mesma forma que o instante de um estilhaço de vidro não decorre diretamente do microestado anterior, mas de uma possibilidade estatística entre um número incomensurável de alternativas. O passado constitui um tecido estilhaçado, deixando um acúmulo de vestígios a partir dos quais não é possível retraçar o caminho de volta. Do mesmo modo, a desorganização das trajetórias possíveis do mundo aumenta em direção ao futuro.

A dispersão do calor e da energia no processo entrópico também significa que a energia fisicamente disponível em qualquer sistema — a energia de trabalho — tende a se desconcentrar, diminuindo de forma inexorável e conduzindo, no limite, ao esgotamento desse sistema em particular. Ou seja, ao menos a direção desse processo é altamente previsível. Em escala cósmica, essa tendência é formulada como hipótese limite que orienta o tempo na direção do congelamento, ou morte térmica, do próprio universo. Assim, a segunda lei da termodinâmica, também conhecida como lei da entropia, introduz a assimetria e a noção de perda irreversível no conceito físico de tempo. De forma oposta à estabilidade rítmica percebida em uma imagem mecanicista do tempo regida pelo relógio, o tempo da entropia desfaz a ideia de equilíbrio das trajetórias ou de retorno pleno a estados anteriores.

Contudo, por se tratar de tendências probabilísticas, a lei da entropia não é restritiva. Em outro exemplo, se você dispara um spray, inicialmente as partículas ocupam um número limitado de posições no espaço ao redor da aplicação, mas, no decorrer dos segundos, passam a ocupar praticamente qualquer ponto da sala, dispersando-se inclusive para além das janelas. É algoritmicamente possível que essas partículas se reúnam novamente, concentradas no exato ponto inicial; mas, sem nenhuma interferência, esse comportamento é estatisticamente tão improvável que sua ocorrência soaria mística. Em escalas matemáticas, tratar-se-ia de um milagre — ou de uma providência, nos termos da mística judaica benjaminiana —, como se fosse uma forma de reversão do próprio tempo.

Dito isso, aqui a entropia funciona como metáfora existencial da finitude e como alusão político-filosófica à crise da civilização moderna/capitalista.


Notas Complementares

Nota 1.

A utilização de metáforas termodinâmicas para a interpretação de processos sociais não é inédita. Claude Lévi-Strauss formulou a distinção entre sociedades frias e sociedades quentes mobilizando, de modo explícito, a imagem da transferência de calor entre corpos. A metáfora serve para descrever tanto a ruptura forçada de modos de vida tradicionais em contextos de colonização quanto a aceleração histórica própria da modernidade, cujo dinamismo expansivo carrega, paradoxalmente, um prognóstico de esgotamento e colapso civilizatório, em analogia aos processos de dissipação e irreversibilidade descritos pela termodinâmica.


Nota 2

Paulo Arantes argumenta que o presente histórico compartilha afinidades estruturais com o tempo vivido por Walter Benjamin, ainda que formuladas em outra chave. Em sua leitura, trata-se de um tempo do fim: um tempo apocalíptico, marcado pela exaustão das promessas de progresso e pela percepção de colapso iminente. Essa noção atravessa de modo significativo o contexto do entreguerras, quando proliferam prognósticos de decadência e esgotamento da modernidade — entre eles a hoje menos lembrada, mas então influente, obra O Declínio do Ocidente (Oswald Spengler), que exerceu forte papel no imaginário intelectual daquele período.


Nota 3

Yuk Hui chama atenção para a persistente influência de Oswald Spengler, observando o ressurgimento frequente de referências ao autor em espaços contemporâneos da extrema direita digital. Hui alerta para a delicada ambiguidade que atravessa certas críticas à modernidade: a rejeição do legado moderno pode tanto sustentar análises legitimamente críticas quanto deslizar para reacionarismos que naturalizam hierarquias, destinos civilizacionais ou mitologias do declínio. Contra essas apropriações, Hui propõe que a modernidade técnica não seja simplesmente recusada como herança ocidental, mas repensada a partir de outras ontologias e cosmologias, formulando o conceito de cosmotécnica como alternativa crítica à universalização de um único modelo técnico-histórico.

Nota 4

Em sua leitura da história da técnica, Yuk Hui interpreta a cibernética como um ponto de inflexão ontológico na concepção moderna do tempo e da máquina. Se a máquina mecânica clássica operava segundo um regime temporal homogêneo, linear e previsível — análogo ao tempo do relógio —, a cibernética inaugura um paradigma orgânico, baseado em autorregulação, adaptação e retroalimentação. É nesse contexto que Hui aproxima a cibernética da filosofia da duração de Henri Bergson: o tempo deixa de ser concebido como sucessão abstrata de instantes equivalentes e passa a ser pensado como processo qualitativo, irreversível e interno ao próprio funcionamento dos sistemas.

A organicidade da cibernética não é apenas metafórica. Ela se apoia em um campo conceitual compartilhado entre biologia e computação, consolidado no pós-guerra por abordagens como a Teoria Geral dos Sistemas, simultaneamente paradigmática para o desenvolvimento das ciências da computação e das ciências da vida. Noções como informação, feedback, homeostase e regulação circulam entre esses campos, descrevendo tanto processos celulares quanto sistemas técnicos. A máquina cibernética, nesse sentido, não funciona como um mecanismo fechado, mas como um organismo artificial que mantém sua estabilidade apenas por meio de trocas constantes com o ambiente. (Hui aborda essas noções principalmente em tecnodiversidade)

Essa reorganização ontológica não revoga, contudo, o horizonte entrópico. Sistemas autorregulados produzem zonas locais de ordem apenas à custa de gasto contínuo de energia, adiando — mas nunca suspendendo — a dissipação global. A ironia contemporânea desse modelo se manifesta de forma concreta na infraestrutura digital: os datacenters que sustentam a ordem informacional do mundo conectado dependem de consumo energético crescente e de complexos sistemas de resfriamento, convertendo a promessa de organicidade e controle em mais um vetor de intensificação entrópica, agora com efeitos climáticos tangíveis.

Uma resposta

  1. Lendo essa lucidez, lembrei-me de Dostoiévski: “Todos nós somos culpados de tudo.” Belos trabalhos em sua Página
    Grato pela visita.
    Darlan M Cunha

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